à parte dos comentários

 “Só precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento súbito não apague a chama.”  Rubem Alves

reparo que, por vezes, os comentários que se ouvem, quando menos se espera, conseguem um alcance superior à confissão de uma vidente armada de Tarot e pózinhos de pirlimpimpim. são como se na Tv surgisse a Maya num plano muito fechado e a atravessar o monitor para o lado de cá viesse mostrar os caminhos que nos vão surgir passadas umas horas. e depois ainda nos acusasse da responsabilidade nas escolhas que ainda nem sequer sonhávamos virem a existir…

é assim.  é como comprar os bilhetes para aquele filme, para irmos com a tal companhia, sermos acompanhados pela “mecinha” que nos indica os lugares e depois ouvir uma pérola do tipo: “não são os melhores lugares, pois não?! Mas foi você que comprou os bilhetes…”

 é o arrepio que surge, é a posição na cadeira que nunca mais fica confortável, é o olhar no escuro à procura do balde de pipocas que possa surgir disparado de um lado qualquer, é o telemóvel ligado no bolso e a mãezinha que pode ligar a qualquer momento e a deixar-nos sem capacidade para explicar o inoportuno da coisa, é a desconfiança, é tudo e é nada, e é o tal filme e aquela companhia que deixam de o ser… e tudo isto no embalo de um ou outro comentário.

e tudo isto porque não ouvimos  e porque não nos calamos. e porque não damos a devida atenção aos gemidos e às rugas que vão surgindo ao nosso lado.

é como passear extasiado num belo jardim em tarde de fim de verão… é certo que não vamos ouvir o estalar das folhas dizendo que o Verão finda e que o Outono virá em breve…

é certo, tão certo como tudo ter um término, com ou sem comentários…

 e que se os tivesse havido, é certo que tudo teria sido diferente.

cuidados teriam sido tomados para que tudo fosse maior e teríamos encontrado abrigo um no outro em abraços intermináveis, respirando baixinho para que ninguém nos encontrasse, ali agachados,  aconchegados um no outro, à procura do mínimo arrepio que pudesse ser aquecido numa troca de olhares, a beber-nos um ao outro como se não mais houvesse água no mar, a amar-nos com a ânsia de não se ter mais tempo, à velocidade de um sopro, envelhecendo rapidamente como o ultimo fósforo que se extingue, virando cinzas sem peso, memórias do que se viveu e se vai esquecendo, até não sermos mais que um comentário vindo de alguém que sempre nos foi indiferente…

mas desprezámos os comentários e seguimos despreocupados, sabendo ser inevitável , desde  então, que um dia nada mais sendo do que já fomos, estaremos algures, cada um pelo seu caminho, com lamentos calados, a dar razão aos comentários que devíamos ter ouvido…

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2 thoughts on “à parte dos comentários

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