filhos da… mãe

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à nossa volta os dois rapazotes passam o dia um com o outro, entregues ao mundo e a si mesmos. também eles têm fome, daquela que nos transborda o ácido para lá da boca do estômago. têm também da outra que nos faz tilintar o coração com frio. os dois rapazotes passam o dia um com o outro, entregues ao mundo, entregues a si mesmos, sem evidência dos seus adultos por perto. outrora, neste continente, a parentalidade podia estender-se por toda uma aldeia, agora crescem as crianças aos bocados, um pouco aqui, um pouco ali e muito por onde calhar que ninguém quer saber. tudo cresce por aqui, enquanto não é levado pela enxurrada.

um pai, nesta terra, carrega pouco mais que o significado biológico, mas ter um “mais velho” por perto é ter alguém com a altura de um farol e o aconchego de um ninho. pensamos “a mãe?!” e um de nós desprende a frase: “aqui, são sempre filhos da mãe….!”.

todos nós, homens, alguns pais, ficamos a olhar para os rapazitos com uma expressão perplexa e complacente, inconscientes de que nunca iremos sentir o significado completo dessa frase.

“são sempre filhos da mãe…!”

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gente partida…

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uma manhã de domingo, de um domingo qualquer, mais um esforço de lavagem das saudades com água de cevada e malte fermentados. mais um dia em que tudo parece distante e tudo é insuficiente, porque aqui sempre nos falta algo. não é por acaso que um dos temas mais repetidos ao longo da semana de trabalho é o almoço de rescaldo no domingo. é que, deste lado, estamos constantemente com fome, fome de casa e fome dos que aqui não temos connosco. é assim que ao domingo vamos à praia dar sol às nossas barrigas cheias dessa fome.

somos gente com barrigas grandes que competem em tamanho com a avidez dos nossos olhares. temos fome e queremos comer. queremos saciar este vazio interior tão grande que nos faz gente nostálgica, gente presa a passados que o presente esvaziou de sentido. somos gente triste, mesmo quando nos rimos. somos gente com umbigos sobressaídos e com dificuldade em pendurar o olhar noutra coisa qualquer.

e acabamos o dia com as lamurias do que alguém já foi ou já fez, lamentos desinfectadas no excesso do álcool consumido. assim fechamos mais um dia, melhor acomodados.


somos, em mais uma manhã, gente que um dia partiu…

antes não era assim…

havia o respeito mútuo…

havia o reconhecimento do espaço de cada um…

e cada passo era antecedido de uma análise pormenorizada a todos os sinais que o outro estivesse a emitir

mas para quem tem perfil de vadio é tudo dele e o confronto é inevitável…

e eu ainda vou acabar por ouvir algo tipo:

“nem vais acreditar… mas quando entrei em casa… sabes quem já estava no nosso sofá?!

SIIIMM, o gato mau !!! “

oooppss, tarde demais!

 

 

oh, GATOS… pensam que é tudo deles!!!

psssiiiiuuuu…

“…

‘cos you just have to know…

THE SWEETEST THING IS YOU BABY,


THE SWEETEST THING THAT I CAN BREATHE… IT’S YOU BABY

…”

 

(pois que estou a ouvir isto em modo “repeat”,

mesmo “non-stop”,

horas a fio…

aos pulos e tudo!

será que alguém vai notar…?!

espero que esse alguém sejas tu Su!

hehe)

– Skunk Anansie rules today Baby ! Ooohh yeeaaah! –

desejo / coalescência…

envolver-te

com os corpos apertados

em desejo crescente

reencontrar-me no teu cheiro

ver-me pelos teus olhos

tocar-te a pele ardente

até sentir o teu pensamento

e ouvir-te no coração

o desejo liberto

e o ritmo da emoção

 

coalescência

nome feminino

aderência de partes que se encontram separadas

(Do lat. coalescentìa, neut. pl. de coalescente-, part. pres. de coalescère, «crescer juntamente»)

in: http://www.infopedia.pt/ (Dicionário de Língua Portuguesa)

aaah Lúcia…

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isto hoje foi demais!

o que dirá o director do Projecto quando souber ?!? (sempre é um projecto de elevada segurança…) não resisti! tentei manter o alinhamento… mas só se resiste até onde se pode!

tu e eu… às voltas… o calor lá fora e nós os dois às voltas… janelas fechadas… eu, nos olhos a alegria sacaninha de quem faz uma maldade… sim, porque no fundo até sou um rapazito maroto… e tu às voltas… “uuuuu yeeeeaaaahh”…

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e foi para aí o quê?

talvez uns bons 45 minutos às voltas, de carro,

eu a olhar para os outros a trabalharem

e a curtir-te em “repeat mode”.

Foi booom!

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e é Kizomba o que lhes corre nas veias…

por aqui, o que se vê ao redor são casitas cor de cimento onde nunca encostou a ponta de um pincel . Vemos arruamentos roubados à mata e buracos. Buracos que só não crescem em crateras pela teimosia da pá que continua a lançar-lhes a areia que já lhes cai solta de volta à mata. Mas também vemos pessoas que parecem imensas, vindas de todos os lados como formigas saídas de buracos. E ouve-se. Ouvimos sons martelados que fogem de dentro de enormes calhaus a que equivocadamente apelidam de rádios (made in china, pois claro);  e sons lançados de uma altura tal que podem por termo à vidinha do tímpano mais robusto.

"o que lhes corre no sangue"Tudo parece distorcido pelo movimento destas gentes. Mexem-se, não param quietos. Tudo se move à nossa volta, mas não depressa que o calor a mais não permite. E esta movida é incessante. De dia, à noite ou de madrugada, tanto faz, que os horários ficaram parados noutros locais. Todos se remexem, incluindo o petiz ranhosito acabado de saltar do dorso materno e que corre ou esgravata o chão sem sonhar que existe uma 5ª dimensão denominada “Toys’r’us”. Aqueles outros já com mais anos de vida vivida também se remexem (é-me difícil advinhar-lhes a idade porque, apesar das feições esgotadas pelo calor, a longevidade por estas latitudes ainda é um luxo). Estes, no entanto, há muito que trocaram os paus e latas feitas em carrinhos por outros objectos lúdicos. Gingam com garrafas de cerveja cheias nas mãos, rapidamente vazias por todo o lado feitas em cacos. É tanto este remexer que chega a cansar os sentidos, principalmente da audição, mas que a estranheza sentida não deixa contagiar. E outros sentidos também, a quem conduz por aqui, porque ao fugir de lhes acertar é como quem tenta sair num video-jogo de um campo minado com minas aos saltos.

São minas que desafiam a nossa passagem para nos levar a dançar o Kizomba…