…e nada mais… se espera de um pai… hoje e nos outros dias também

cai-me em cima o dia, ainda cedo e já com ar inquiridor, aponta os ponteiros do relógio em jeito de ameaça, faz sentir-me culpado por resistir à vontade externa de manifestar parentalidade… como se por alguma ordem soberana ser Pai tenha passado a ser, de um dia para o outro, hoje mais do que em qualquer outro dia, o “tal estatuto”, a salvação, e eu, tal e qual menino indefeso mas devoto, deixo-me ser levado pelo ritual que, tal como me garantem, faz-me homem, assim num ápice, homem acima de outros, e num instante, já com os deveres de casa cumpridos, livros na mala, miúdo entregue aos cuidados da educadora, trabalho nobre o de amante em “outsourcing”, eu empossado pela consciência de ser pai, em ritmo de filho pródigo, jogo-me na corrida para o telefone… também ele excitado por esta onda… triiim-triiim… um “bom dia… então que tal… e mais ou menos… assim e assado… e um dia bom também”… “beijos-beijos”… click… e caiu a ficha que me deixa a pensar… a rever-me nas imagens que consigo trazer desde os primórdios da minha consciência… nos pais que tive… Pai… Avô… pais agora revistos com olhos de pai, de ombros nivelados pela responsabilidade e sentido partilhado de irmandade, como companheiros num mesmo pelotão em que nos alinhamos logo cedo nos outros dias, e noites também, de peito para a frente e temores escondidos para lá das costas direitas, bem longe… porque um pai é uma norma, uma referência, e estas coisas não se querem vacilantes porque precisamos de tirar-lhes as nossas medidas, medidas certas para caminhos direitos, que ao meu tirei-lhas bem, bastantes vezes, e ainda o faço porque sou dos sortudos que tem um pai com um olhar de pai, daqueles de onde se podem trazer ensinamentos, embora já não com tanta frequência como me habituou em criança e que bem me consolou, ensinamentos que sopeso e que me trazem de volta à realidade… à realidade deste dia, dia que eu queria que tivesse o calor de um carnaval tropical, ou pelo menos que ele assim o sentisse no abraço que lhe ofereci, um dia de festa que valesse por dois ou mais e celebrado até à exaustão, em pulos, cambalhotas e rodopios, trocando voltas à vida para que esta nos deixasse celebrar em conjunto, todos, pai e filhos, os dele, os meus, os nossos, como índios nas festas da tribo, despidos de preconceitos, que isso a vida já se encarrega de o fazer à medida que nos vai reconstruindo, que nos conduz na vertigem de filhos ao estado de pais, e a pais-filhos, acrescentando umas medidas e refazendo outras, numa viagem que nos leva a valorar os dias de outro modo, a encontrar tesouros nos sorrisos e nas brincadeiras das crianças, brincadeiras que nos trazem de volta à liberdade desses nossos tempos, tempos de dias infinitos, de coisitas pequenas, simples e valiosas que voltamos a descobrir nas conquistas insignificantes dos petizes, mesmo no andar titubeante mais rudimentar, mas que nos fazem intumescer o ego de machos-alfa e andar de sorriso fácil, por muitos dias, todos os outros para além deste dia, dias que deveríamos saber manter limpos, vazados de coisas supérfluas, de consolas de jogos, ipads, ipods, inutilidades e… e “i-asneiras”, tantas, com as quais os atafulhamos, por inépcia, insegurança e… e “iiiirra”, tanta merdice, parafernália desnecessária, a ponto de me perguntar como é que estes seres em construção vão algum dia crescer, sem se vaticinar já a sua derrota acéfala ao consumismo e à dependência dos pais, pais-heróis mas demasiadamente ausentes, como heróis de guerras perdidas, pais que administram suplementos vitamínicos de materialismo para adoçar as boquinhas de bezerrinhos mimados, em crises de “birrite” ou apenas carentes de educação, tanto quanto de amor e atenção, crises facilmente ultrapassáveis por um mágico “nãaaao”, bem aplicado e a servir-lhes de vara-mestre, entregue com olhar decidido, em braços firmes como os do pescador experiente que medindo forças com o mar bravo, numas vezes cede, noutras conquista o avanço, mas acaba por levar o barco a bom porto, porto-seguro, local de acolhimento e descanso,  guardado para dias tempestuosos, e nada mais simples que isto se espera de um pai, a nossa rede de segurança, hoje e nos outros dias também.

(escrito a 19/Março/2013).

ora diga lá excelência…

..

muito se escreve, em muitos blogs, sobre o desgaste nas relações e as falências a que conduzem.

também, muito se descreve, em muitos blogs, sobre as expectivas, formas e os feitios da outra pessoa nas relações, incluindo descrições das consequentes implicações nos des.|.enlaces das mesmas.

o que ainda não encontrei foi um “postalinho” onde alguém exponha (em jeito de autocrítica) como julga que deveria ser para ser a pessoa ideal para o/a outro/a… e não me refiro ao eventual “encaixe” nas expectativas do outro – “complex”, não é?! pois, talvez…

simplificando… se nos pomos a imaginar como deveríamos ser para ser o/a tal pessoa ideal para alguém (em abstracto)….então, o que mudaríamos no sentido da excelência?

vá não se acanhem… mesmo em anónimo… comentem lá como seriam se fossem para alguém aquela “laranja” excelente…

(ou será que, afinal, nas relações, passado o período do engate/engodo,

mandamos para cima do outro aquilo que somos…

e toma lá aguenta-te porque disseste que gostavas…. tungas!!!)

.